Vitória Globoplay

Filme • 2025

Vitória: review do filme com Fernanda Montenegro

Vitória vale a pena principalmente pela atuação extraordinária de Fernanda Montenegro e pela força de sua história real. O filme apresenta um drama humano, tenso e sensível sobre coragem, violência urbana, solidão e busca por justiça. Apesar de alguns momentos previsíveis, é uma produção brasileira emocionante, relevante e muito bem conduzida.

GêneroDrama
PlataformasGloboplay, Telecine
Duração1h52min
Classificação16 anos

Review Vitória sem Spoiler

Vitória é um drama brasileiro baseado na história real de Joana Zeferino da Paz, mulher que ficou conhecida nacionalmente depois de registrar, da janela de seu apartamento, a movimentação de criminosos que atuavam nas proximidades de sua casa. No filme, a personagem é apresentada como Nina, uma aposentada solitária interpretada por Fernanda Montenegro, que observa o avanço da violência em seu bairro e decide fazer algo mesmo sem receber o apoio esperado das autoridades. A produção foi lançada nos cinemas brasileiros em 13 de março de 2025 e posteriormente chegou ao catálogo do Globoplay.

O primeiro grande mérito do longa está em transformar uma história conhecida por sua dimensão policial em um drama profundamente humano. Vitória não se concentra apenas nas gravações feitas pela protagonista ou na possibilidade de identificar criminosos. O roteiro procura mostrar o que significa viver constantemente cercada pelo medo, especialmente quando a pessoa sente que não pode confiar completamente nos vizinhos, nas instituições ou na própria segurança de sua casa.

Nina não é construída como uma heroína invencível. Ela sente medo, demonstra cansaço, toma decisões impulsivas e enfrenta momentos de dúvida. Essa vulnerabilidade é essencial para que sua coragem tenha verdadeiro peso. O filme deixa claro que agir não significa deixar de sentir medo, mas encontrar forças para continuar apesar dele. Fernanda Montenegro compreende perfeitamente essa proposta e oferece uma interpretação cheia de detalhes, pausas e pequenos gestos.

A atriz domina o filme sem transformar sua atuação em uma demonstração exagerada de talento. Muitas das melhores cenas acontecem quando Nina está aparentemente fazendo pouco: observando a rua, segurando uma câmera, esperando uma resposta ou tentando manter uma conversa cotidiana. O olhar da personagem frequentemente comunica mais do que os diálogos. Existe uma mistura constante de firmeza, solidão, desconfiança e necessidade de afeto em sua interpretação.

A relação entre Nina e o jornalista que passa a acompanhar o caso ajuda a movimentar a narrativa. Interpretado por Alan Rocha, o personagem funciona como uma ponte entre aquela mulher isolada em seu apartamento e um mundo capaz de ouvir sua denúncia. A proximidade entre os dois também oferece ao filme uma dimensão afetiva importante, evitando que a história se transforme apenas em uma sequência de ameaças, investigações e registros feitos à distância.

O longa também dedica espaço às relações da protagonista com pessoas que vivem ao seu redor. Algumas dessas conexões mostram que Nina não está lutando apenas para proteger a própria vida. Mesmo desconfiada e frequentemente frustrada, ela ainda demonstra preocupação com quem pode ser atingido pela violência. Essa característica impede que sua atitude pareça apenas uma reação individual ou uma busca por reconhecimento.

A direção de Andrucha Waddington trabalha bem os espaços fechados. O apartamento se transforma simultaneamente em lar, ponto de observação, abrigo e prisão. A janela ocupa uma posição central na linguagem visual do filme: por ela, Nina acompanha o mundo, procura provas e se expõe ao perigo. Essa escolha cria uma sensação constante de proximidade com a ameaça, mesmo quando nenhum confronto direto está acontecendo.

A fotografia utiliza sombras, enquadramentos fechados e ambientes noturnos para reforçar a tensão. O público frequentemente observa os acontecimentos da mesma maneira limitada que a protagonista, sem controlar completamente o que está acontecendo do lado de fora. Isso ajuda o filme a construir suspense sem abandonar seu caráter dramático. Não se trata de uma produção de ação, embora existam momentos de perigo, perseguição e pressão.

O som é outro elemento importante. Ruídos vindos da rua, conversas distantes, sirenes e momentos de silêncio fazem o apartamento parecer vulnerável. Em diversas cenas, a expectativa criada pelo que Nina escuta é tão relevante quanto aquilo que aparece na tela. A trilha sonora de Antonio Pinto acompanha o drama de maneira contida, evitando manipular excessivamente as emoções do espectador.

O roteiro também acerta ao não romantizar completamente a coragem da protagonista. Registrar criminosos de uma janela pode parecer um gesto admirável, mas envolve riscos enormes. O filme mostra o desgaste psicológico dessa decisão, a sensação de estar sendo observada e as consequências de transformar a própria casa em um posto improvisado de vigilância.

Ao mesmo tempo, Vitória apresenta algumas limitações. Certos personagens secundários são desenvolvidos principalmente para representar posições específicas dentro da história: a indiferença, o medo, a solidariedade ou a corrupção. Alguns conflitos poderiam ter recebido mais profundidade, especialmente porque o caso real envolve questões sociais, policiais e jornalísticas complexas.

Em determinados momentos, o filme também reforça mensagens que já estavam claras por meio da atuação e das imagens. Alguns diálogos explicam sentimentos ou acontecimentos que poderiam permanecer mais sutis. Esse excesso não compromete a experiência, mas reduz um pouco a naturalidade de cenas que já seriam suficientemente fortes sem explicações adicionais.

Mesmo assim, a narrativa mantém um bom ritmo durante suas 1h52min. A produção intercala observação, drama pessoal e tensão crescente sem parecer excessivamente longa. O interesse não depende apenas da descoberta do resultado da denúncia, mas da relação construída com Nina e da compreensão do preço que ela paga por não aceitar permanecer em silêncio.

O fato de a história ser inspirada em acontecimentos reais aumenta seu impacto, mas Vitória não depende somente disso para emocionar. O filme funciona porque apresenta uma protagonista convincente e uma situação que dialoga com temas ainda presentes na realidade brasileira: violência urbana, abandono institucional, medo cotidiano, desigualdade e dificuldade de confiar nas autoridades.

A classificação indicativa de 16 anos está relacionada ao tratamento da violência, do tráfico de drogas, das ameaças e de outros temas intensos. O Globoplay apresenta o longa em 4K, com áudio 5.1, audiodescrição e closed caption, dentro de seu catálogo brasileiro.

Vitória não é uma produção leve ou escapista. Sua força está justamente no desconforto provocado pela história de uma mulher aparentemente comum que precisa tomar uma decisão extraordinária. A combinação entre a interpretação de Fernanda Montenegro, a direção segura e a relevância do tema transforma o longa em uma experiência emocionante, ainda que o roteiro pudesse ser mais sutil em alguns momentos.

Trailer de Vitória

Pontos fortes

  • Fernanda Montenegro entrega uma atuação extremamente humana, firme e emocional.
  • A história real é apresentada de maneira acessível, tensa e envolvente.
  • O apartamento e a janela são utilizados de forma inteligente na construção visual.
  • O filme aborda violência urbana sem depender de cenas de ação exageradas.
  • A relação entre Nina e o jornalista oferece afeto e equilíbrio ao drama.
  • O desenho de som aumenta a sensação de perigo ao redor da protagonista.
  • A direção mantém o foco na experiência humana por trás da investigação.
  • A narrativa apresenta uma protagonista corajosa sem transformá-la em uma figura invulnerável.

Pontos fracos

  • Alguns personagens secundários poderiam ter recebido maior desenvolvimento.
  • Determinados diálogos explicam emoções que já estavam claras nas imagens.
  • A abordagem de algumas instituições é simplificada diante da complexidade do caso.
  • Algumas passagens seguem caminhos previsíveis de filmes baseados em histórias reais.
  • O roteiro poderia explorar com maior profundidade as consequências psicológicas da vigilância.
  • Parte do impacto depende da atuação de Fernanda Montenegro para superar momentos mais convencionais.

Notas por critério

geral

9/10

visual

9/10

audio

9/10

enredo

9/10

Para quem é

Vitória é indicado para quem gosta de dramas brasileiros baseados em histórias reais, produções sobre justiça, jornalismo, violência urbana e pessoas comuns colocadas diante de situações extraordinárias. Também é uma ótima escolha para quem aprecia filmes centrados em grandes interpretações e narrativas que priorizam personagens em vez de ação. O longa pode agradar especialmente ao público que gostou de obras nacionais sobre resistência, desigualdade social e enfrentamento de estruturas de poder. Admiradores de Fernanda Montenegro encontrarão mais uma atuação marcada por sensibilidade, presença e domínio completo da personagem.

Para quem não é

O filme pode não agradar quem procura uma produção leve, acelerada ou repleta de ação. Embora exista tensão, Vitória se desenvolve principalmente por meio de observações, conversas, silêncios e conflitos emocionais. Também pode parecer convencional para espectadores que esperam uma abordagem extremamente investigativa ou uma análise aprofundada do funcionamento do tráfico, da polícia e do jornalismo. O foco permanece na experiência pessoal da protagonista, e não na reconstrução detalhada de todos os aspectos do caso.

Spoilers (abrir)

Nina passa grande parte da história registrando da janela de seu apartamento a movimentação dos traficantes que atuam perto de sua casa. Inicialmente, ela tenta entregar as gravações às autoridades, mas encontra desconfiança, indiferença e resistência. A situação começa a mudar quando o jornalista Flávio Godoy se interessa pelo material e percebe que as imagens podem comprovar a existência de uma estrutura criminosa organizada. A relação entre Nina e Flávio se transforma em um dos centros emocionais do filme. Ele não é apenas alguém interessado em publicar uma reportagem. Aos poucos, torna-se uma das poucas pessoas em quem ela consegue confiar. Para Nina, que vive isolada e tem relações difíceis com parte da vizinhança, essa aproximação representa uma oportunidade de ser ouvida e reconhecida. As gravações revelam atividades criminosas e também indicam o envolvimento de policiais com a quadrilha. Essa descoberta amplia consideravelmente o perigo enfrentado pela protagonista. Nina deixa de ser apenas uma moradora incomodada com o tráfico e passa a ser uma testemunha capaz de comprometer criminosos e agentes públicos. O filme mostra que a divulgação do caso traz resultados, mas não oferece uma vitória simples ou completamente satisfatória. Pessoas são investigadas e presas, porém Nina precisa abandonar sua identidade e entrar no programa de proteção a testemunhas. Sua coragem ajuda a desarticular o esquema criminoso, mas também destrói a possibilidade de continuar vivendo normalmente em sua própria casa. Esse desfecho reforça a contradição central do filme: Nina vence ao conseguir denunciar os crimes, mas perde sua rotina, sua segurança e parte da própria identidade. O título Vitória funciona, portanto, tanto como referência ao nome adotado para proteger a verdadeira mulher que inspirou a história quanto como uma pergunta sobre o significado de vencer. A protagonista não recebe uma recompensa proporcional ao risco que enfrentou. Sua atitude produz consequências importantes para a sociedade, mas exige que ela desapareça. O final evidencia a solidão de uma pessoa que enfrentou criminosos e instituições, porém precisou permanecer anônima durante anos para sobreviver. A história verdadeira que inspirou o filme só teve a identidade de Joana Zeferino da Paz revelada depois de sua morte. Durante anos, ela foi conhecida publicamente pelo pseudônimo Dona Vitória, enquanto vivia sob proteção devido às consequências de suas denúncias. O encerramento é forte porque não transforma a jornada em uma celebração simples. Existe reconhecimento pela coragem de Nina, mas também uma crítica ao fato de que uma mulher idosa precisou arriscar a própria vida para que crimes visíveis fossem levados a sério. Sua vitória é real, porém marcada por perdas profundas.

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